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7.6.12

MAD MEN no mundo plástico de BARBIE & KEN


©MICHAEL WILLIAMS/MYLIFEINPLASTIC.COM

É um desafio encontrar algum designer ou publicitário que não curta o seriado MAD MAN. Duvido. Para quem não conhece, a divertida trama acompanha a evolução de uma agência de publicidade na Madison Avenue (NY), começando nos anos 60 ao melhor estilo "James-marido-da-feiticeira-Samantha", protagonizada pelo irresistível diretor de criação Don Draper (Joe Hamm) e suas apresentações de campanhas para os clientes, munido de pranchas-layout desenhadas à mão.


Ao longo das  temporadas que atravessam a década até chegar aos anos 70, acompanhamos sócios-diretores, redatores, atendimentos, secretárias, clientes e é claro, as esposas. Entre drinks e cigarros, casamentos acabam, a agência entra em crise, cresce e muda de nome. Mas o mais bacana é a produção com reconstituições de época bem cuidadissimas: figurinos, cenários, referências históricas e até detalhes de objetos de cena, como o suprimento de fitas de máquina de escrever vistos de relance dentro da gaveta da redatora Peggy Olson (Elisabeth Moss).

Em plena 5ª temporada do seriado, Michael Williams lança o divertido ensaio fotográfico "My Life in Plastic" de 2012: uma paródia dos personagens de MAD MAN, compostos com requintes nos figurinos, adereços, cenários e objetos de cena em miniatura. O engraçado é que ele acompanha o estilo na evolução dos personagens. O senso de humor fica por conta do descritivo do kit que acompanha cada um, sintonizado com as cenas da temporada. Com direito ao Zou Bisou Bisou de Megan Draper (Jessica Paré) e tudo: um charme.


Em 2010, depois da quarta temporada, a Mattel fez uma jogada de marketing lançado uma série premium de quatro bonecas Barbie & Ken caracterizados como personagens de Mad Man, dentro da linha Barbie Fashion Model Collection: Don e Betty Draper, Sterling e a ruivíssima Joan (saiba mais). Cada boneca saía em torno de U$ 75, com a perfeição plastificada típica do "mundo Barbie" glamourosamente personificada por Betty e seu estilo à la Grace Kelly. Hoje (junho de 2012), o Don Draper da linha pode ser encontrado no site por U$ 55. 

Abaixo, a versão original 2010 Barbie & Ken de "Mad Men" da Mattel:
Joan Holloway, Roger Sterling, Don Draper and Betty Draper

Dois anos depois, Michael Williams dá um “boost” 2012 na coleção, acrescentando bonecos e colocando sal-e-pimenta na iniciativa Mattel. Na paródia, Betty é Sra. Francis e gorducha, e não dispensa o spray de chantilly. Já Pete Campbell, o inseguro e ambicioso sócio-júnior agarra-se ao "mimo" de seu cliente, um par de skis. Joan, a ruiva-secretária-executiva fatal, surge dignamente com seu bebê. Se você assiste, saberá do que estou falando!


A versão de "My Life in Plastic"(veja o slideshow aqui), de Michael Williams - dedicado a clicar outros editorais fashion com as bonecas - é bem mais bacana que os colecionáveis Mattel, mas tem um defeitinho: até onde sabemos, não está à venda. 
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Michael Williams' www.mylifeofplastic.com

23.4.12

W.J. Kennedy traz imagens inéditas de ANDY WARHOL

Photo by William John Kennedy- Warhol Flowers II

A obra de Andy Warhol é conhecidíssima: as múltiplas imagens ultra-gráficas de Marilyn Monroe, a banana do Velvet Underground ou a lata de sopa Campbell's, reproduzidas à exaustão, são recorrentes em nossa memória iconográfica pop. Boa parte de sua vida de jetsetter-pop-multimídia também já era conhecida, seja por seu livro auto-biográfico "The Philosophy of Andy Warhol (From A to B and Back Again)", publicado em 1975, seus próprios programas Andy Warhol’s Fifteen Minutes and Andy Warhol’s TV exibidos na MTV e TV a cabo, ou ainda seus vários auto-retratos. Suas inúmeras fotos feitas em Polaroid, clicando a si mesmo ou pessoas de seu convívio social poderiam render posts de Instagram, antecipando nas décadas de 70/80 as futuras chamadas redes sociais.







Agora Warhol reaparece em novos ângulos numa exposição de mais de 60 fotografias assinadas pelo fotógrafo de arte William John Kennedy e que ficaram guardadas por quase 50 anos.


A exposição foi inaugurada em Nova York dia 19 de abril (até 29 de maio de 2012). William John Kennedy nasceu em 1930 e atuou como freelancer em NYC com trabalhos para editoriais na LIFE Magazine e Sports Illustrated e campanhas para Avon, GE, IBM, American Express, Xerox e outros. Hoje vive em Miami.

As fotos (veja no site do curador, em preto e branco e em cores), ampliadas diretamente dos negativos sobre papel de fibra em tiragem de 60 cópias assinadas por Kennedy, transporta o espectador através de um dos momentos marcantes da história cultural e alguns dos personagens que moldaram o curso da arte americana na segunda metade do século XX.

As imagens insider dessa coleção foram clicadas quando William John Kennedy e sua esposa Marie iniciaram uma amizade com Andy Warhol e Robert Indiana, captando os dois artistas e suas obras mais emblemáticas do movimento Pop Art com ares de making of.

Também foi feito um documentário: "Full Circle: Before They Were Famous” (Círculo Completo: Antes Deles Ficarem Famosos), que faz uma crônica sobre o percurso das imagens, da época em que foram fotografadas até hoje.




Exibido em premiére na Art Basel Miami Beach 2010 e com depoimentos de Robert Indiana, Ultra Violet (uma das “superstars” de Warhol) e o poeta performático Taylor Mead contando particularidades, o filme é cheio de anedotas pessoais e lembranças que completam o quadro.

Andy Warhol é o artista-emblema da Pop Art e tem uma obra relevante, que flutua num universo entre a arte e o design. Com sua abordagem irônica, muitas vezes ácida e inteligente sobre ícones da sociedade de consumo, Warhol soube dela tirar proveito com a maior desenvoltura, quebrando “regras” do mercado da arte e transformando suas obras em “produtos” reproduzidos em escala serial de serigrafias e litografias ao alcance de muitos. Faz de si mesmo uma “marca”, transitando sem barreiras entre muitos meios de comunicação como um perfeito sef-promoter.



Dono de uma aguda percepção das possibilidades de manipulação da mídia, cunhou a famosa frase, que cai hoje como uma luva para um mundo que se curva aos reality shows: “No futuro todo mundo será famoso por quinze minutos” ("In the future everyone will be famous for fifteen minutes"). Certamente sua veia “publicitária” foi cultivada cedo, pós-faculdade e ainda como ilustrador das revistas Vogue, Harper's Bazaar e The New Yorker, as revistas mais cult da época, e como diretor de arte para peças publicitárias e displays para vitrines de lojas.

Entre os anos 60 e 70, numa NY agitada por muita experimentação de drogas, seu estúdio “Factory” (Fábrica) em Manhattan era o “point” da galera underground e descolada, entre drag-queens, modelos, atores de Hollywood, gente de teatro, rockers e boêmios em geral. Pessoas como Lou Reed, Bob Dylan, Mick Jagger, Truman Capote e Allen Ginsberg andavam por lá.


No meio dessa roda-viva social de  moda, sexo, drogas e rock’n’roll, alguns “menos famosos” tornavam-se “queridinhos” de Warhol e eram alçados à condição de seus “superstars” – um termo dele. Num jogo de fama e culto à imagem, fotografava ou fazia filmes curta-metragem com essas pessoas, transformando-as em celebridades (fatalmente) “temporárias”. Alguns não suportaram o processo de ascensão e queda (poderia ser chamado de manipulação?) virtualmente temperado por "aditivos", como a deprimida modelo-musa Edie Sedgwick, que suicidou-se aos 28 anos em 1971. O filme Factory Girl (Uma Garota Irresistível), conta uma versão dessa história, sob protestos de Bob Dylan que o considerou difamatório.


Acima, o trailer de BEAUTIFUL DARLING, documentário com entrevistas com Fran Leibowitz e John Waters, sobre a vida de Candy Darling que sonhava ser uma nova Kim Novak e acabou tornando-se uma das “superstars” de Warhol. Distribuido por Corinth Films, lançado em DVD em 31/jan/2012.

Por outro lado, Warhol foi mentor e definitivamente impulsionou a carreira de outros artistas do cenário da nova-iorquino da pop art: Keith Haring e Jean-Michel Basquiat,  ambos com abordagens vindas do graffiti. Sobre este último, vale assistir ao filme “Basquiat”, de 96, com elenco estelar e David Bowie no papel de Andy Warhol. Ou ainda o filme documentário “Downtown 81” (ou New York Beat Movie), de Edo Bertoglio, com Basquiat atuando e várias participações especiais, como de Kid Creole and the Coconuts. A trilha sonora tem vários colaboradores, entre eles, John Lurie e Grey, a banda do próprio Basquiat.



Uma conclusão que custei a ter mas me foi muito útil: é preciso saber separar o atista de sua obra. Devo admitir que, por pura idiossincrasia, sinto algum desconforto em relação à pessoa  de Andy Warhol (1928 –1987). Convenhamos que isso é o tipo de dado totalmente irrelevante e quase bizarro, já que, distante por muitos quilômetros e algumas décadas, jamais o conheci pessoalmente. É preciso reconhecer que, de uma forma ou de outra, o artista Warhol foi um visionário à seu modo e soube como ninguém se perpetuar para muito além daqueles quinze minutos.

7.11.11

Alexandre Orion e a METABIÓTICA




METABIÓTICA – Alexandre Orion Editora: 80 páginas, cor – formato 30 x 30 cm. Capa flexível com caixa especial edição português/inglês/espanhol/francês. Textos de Boris Kossoy, Walter Firmo, Diógenes Moura e Tristan Manco ilustrados com imagens das intervenções urbanas de Alexandre Orion (fotografias das obras do projeto Metabiótica) Valor de venda: R$ 70,00 (setenta reais)



Em 2006, procurando temas para colaboração na revista STREET (veja no rodapé) "topei" com o trabalho de Orion que achei muito bacana. Depois de uma correspondência Rio-São Paulo para apurar detalhes com ele, escrevi esta resenha que resolvi publicar aqui com o acréscimo de vídeos. Porque vale a pena.

Alexandre Orion é um artista de São Paulo que já foi tatuador e que vem criando interferências com sua arte pelas ruas da cidade já há algum tempo, desde 1995. Designer, artista plástico e fotógrafo, trabalha a estética street em espaços "oficiais" quando expõe em galerias, tendo obras adquiridas pelo acervo da Pinacoteca de São Paulo, onde lançou dia 9 de dezembro seu primeiro livro METABIÓTICA (Editora Via das Artes/apoio EGM Gráfica), ou mesmo recebendo prêmios – mas também paralelamente num grafite inusitado pelas ruas, sem preocupação com a fronteira do ser-ou-não-ser maldito.


A despeito de ter um site próprio, onde divulga seu trabalho, e até já ter dado entrevista para a MTV (inversamente ao estilo low profile de um Banksy, cultuado por tantos grafiteiros que adotam o anonimato), a qualidade de seu trabalho e a coerência de seu discurso merecem atenção.



Um exemplo de sua intervenção nas ruas foi o trabalho "Ossário"(veja o vídeo mais abaixo) produzido sobre cerca de 200 m de paredes internas do túnel Max Feffer, na capital paulista, entre as avenidas Europa e Cidade Jardim, noites adentro, a partir de julho de 2006. Ao invés do spray, a técnica usada foi a raspagem de camadas de fuligem, retirando pacientemente tudo o que "não" era o desenho e fazendo surgir, do contraste das áreas limpas e sujas, grandes caveiras contemplando os vivos.



Já que limpeza não é crime, a polícia não pôde impedir o trabalho, mas interferiu dezenas de vezes, num jogo de gato-e-rato com Orion, que chegou a recomeçar o trabalho em outros túneis, depois que uma equipe da Prefeitura, acompanhada da CET e da Polícia Militar providenciou a limpeza das paredes - contraditoriamente, somente na área "grafitada", deixando permanecer a sujeira inexpressiva e a poluição mortal que o trabalho de Orion sublinhava no resto do túnel. 



A ironia do trocadilho do próprio Orion em seu texto reflete a postura crítica perante a realidade que nos cerca: "A sociedade existe, a imagem a funda. A imagem existe, a sociedade afunda". 


O livro é o desdobramento do trabalho iniciado em 2004, que gerou uma exposição naquele ano. O nome Metabiótica vem de uma superposição de palavras: meta, transposição, após; bi + ótica, ótica dupla, duas visões. Algo além de duas visões, um jogo de linguagens: grafite, fotografia e um objetivo por trás disso. 

Trata-se de fotografias compostas pela justaposição dos grafites feitos por Orion em técnica de estêncil pelas ruas somadas a situações espontâneas surgidas da interação entre eles, flagradas no momento certo após longa e paciente espera do artista. As imagens criam um diálogo paradoxal entre o virtual e o real, o efêmero e o permanente, simplesmente sendo poéticas, bem-humoradas ou críticas.

Leia mais aqui (Wooster Collective).

Abaixo, um vídeo de 2010 sobre o trabalho OSSÁRIO: Orion reproduziu em uma galeria de arte uma exposição documental os desenhos e todo o clima dos túneis que, curiosamente depois da intervenção urbana, passaram a ser limpos periodicamente pela Prefeitura. 

Aqui, neste vídeo de 2006, Orion se apresenta como artista: seu backgound, suas metas para o futuro,  o processo de trabalho em Metabiótica. 
 

Confira outros posts sobre cultura pop aqui.
Quer mais sobre street art e graffiti? Em Graffiti: Make Art, Not War: Banksy e OsGemeos.
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Em 2006 uma revista bacana estava sendo lançada aqui no Brasil. Era a Street Magazine, com foco na cultura de rua, matérias sobre grafite, livros, comportamento, arte, moda... O jornalista Lula Rodrigues, como editor chefe, escalou um supertime: na revista # 1 vinham uma entrevista com Marcelo D2, fotos tiradas pelo celular de Cora Rónai, resenha de Tom Leão...por aí vai. Infelizmente como zilhares de projetos editoriais locais e nossa conhecida realidade econômica, a revista não prosseguiu.

Fui convocada como colaboradora e escrevi algumas matérias, algumas das quais esqueci na gaveta. De repente lembrei que, mesmo passado algum tempo, são coisas que valem a pena divulgar. Esta resenha é uma delas.

Aliás, para quem não sabe, Lula Rodrigues conta literalmente tudo sobre moda masculina no seu blog Moda Masculina Em Foco (O Globo).

18.4.11

Lendas urbanas: o teaser-graffiti - A verdade sobre LERFÁ MÚ x CELACANTO

Bem no final da década de 70 começaram a pipocar na zona sul do Rio de Janeiro os primeiros grafites-não-identificados: uma verdadeira batalha nonsense entre os dizeres LERFÁ MÚ e seu “rival” CELACANTO PROVOCA MAREMOTO. Provocando a curiosidade dos mais atentos, surgiam enigmaticamente nos locais mais improváveis, no verdadeiro espírito street, emergindo do rescaldo das pichações políticas contra a ditadura que predominavam até então.


Qual seria o verdadeiro significado daquelas palavras? Como teasers, geravam as especulações mais bizarras nas conversas de bar e mais tarde na imprensa, enquanto os dois autores do LERFÁ MÚ e sua trama estavam rolando de rir. Num clima meio Cheech&Chong, dividiam-se entre a PUC, o estúdio de fotografia e serigrafia no qual eram sócios, os intermináveis ensaios de rock e música blue grass, e os “ataques” clandestinos às paredes da cidade.

Entrando na faculdade de design aos 17 anos, pós-adolescente, fiquei alegremente chapada ao encontrar aquelas duas figuras inenarráveis, que iam ampliando em escala viral o círculo de domínio urbano - com o auxílio luxuoso de uma crescente gang de amigos adeptos e suas latas de spray e canetas pilot. Eram agentes provocadores da melhor estirpe, mais que tudo por uma razão inata: atitude. Dessas pessoas que, mesmo involuntariamente, meio por molecagem, invocam questionamentos, geram polêmicas, disparam a primeira pedra do efeito dominó. Neste caso, não meros pixadores, mas os primeiros e legítimos grafiteiros do Rio.

Os criadores do LERFÁ MÚ, Guilherme Jardim e Rogério Fornari, eram fotógrafos e músicos – entre outras coisas - e eram assim: divertidíssimos. Aqueles dizeres, mera corruptela do private joke que invertia sílabas na gíria de iniciados do bairro, dizendo em código lerfá-mú lhobagu para falar “vamo fumá um bagulho?”, vinham sendo ingenuamente repetidos por autoridades e pessoas públicas, disseminando o uso da cannabis sem nenhuma intenção - para a alegria dos grafiteiros e doidões locais.
Acima, Rogério Fornari (à esquerda) e Guilherme Jardim (à direita).
Ao centro, Paulinho (Paulo Futura), na época fotógrafo e outro sócio do estúdio.
A foto foi usada como indicativo na estrada para uma festa na serra de Petrópolis-RJ.

E insuflado pela crescente notoriedade anônima que aquele simples anagrama assumia, LERFÁ MÚ partiu para a disputa de espaço com o outro grafite, o CELACANTO PROVOCA MAREMOTO, este derivado de uma manchete citada num episódio de Nacional Kid, o seriado cult japonês, pai de Jaspion e avô dos Power-Rangers.

Em 1981, pegando ônibus num belíssimo dia de sol, encontrei Rogério, que se auto-intitulava “freak” (e direis: como não?) portando um soturno guarda-chuva preto. Diante do meu espanto, ele riu e explicou: “- é a senha”.

Fiquei na mesma, até que ele contou que nas internas, há quase um ano, CELACANTO vinha provocando LERFÁ-MÚ trocando desafios sob forma de grafite nas paredes dos banheiros masculinos da PUC, onde ele também estudava. Depois de muitos acordos, travados por escrito e sem se verem, marcaram um misterioso encontro num dos cruzamentos mais barulhentos e movimentados do Rio: esquina da Av. Nossa Senhora com Figueiredo de Magalhães, em plena Copacabana. Para se identificarem mutuamente, nada como improvável guarda-chuva.

Nunca soube o resultado político deste duelo, mas sei que Rogério, como bom freak que era, partiu anos depois para uma vida alternativa num sítio no interior de Minas. Em estilo compatível criou uma banda de rock e tratou de arrebatar a rádio local com suas composições gravadas num porta-estúdio, abiscoitando todos os festivais de música das proximidades. Sempre lerfando mú, é claro.

Já o Guilherme era a personificação da contracultura com um mix pós-moderno: enquanto sabia tudo de Jimi Hendrix, Johnny Winter e Rolling Stones – motivo de meu fascínio – já pilotava um TK 85, um computador pessoal pré-histórico, ouvindo Devo e Kraftwerk ou jogando space invaders. Os amigos que o conheceram – esta quem vos narra entre eles, já inoculada da technomania gamer por contágio - sabem que ali estava um transgressor nato, criativamente embebido na cultura pop. Em outras palavras, um sujeito da pá-virada.

Acima, Guilherme Jardim, Luciana Araujo [Lumyx] e Ricardo Camillo em foto de divulgação da banda.
(foto: Flávio Colker).

Depois de um tilt, o tal computador provocou até a composição de “Choveu No Meu Chip”, nosso sucesso meteórico com a banda ELETRODOMÉSTICOS*, já nos anos 80, onde o mesmo Guilherme era guitarrista e eu, tecladista num Korg Poly-800. Muito antes dos laptops, smartphones e outros gadgets, a canção de inspiração visionária – agora é fácil ver – narrava uma verdadeira tragédia informática da perda de todos os arquivos, profetizada em hilários playbacks new wave que fazíamos no programa do Chacrinha, Xuxa e afins enquanto o público ainda mal sabia o que afinal era um chip. Um grafite musical, a mesma atitude teaser – e o agente provocador entrava novamente em ação. Mas isso é outra lenda urbana.

*Almanaque dos Anos 80, pág. 139, em “Os Intocáveis”.

17.4.11

Graffiti - Make art, not war.

Na cultura pop o grafitti hoje é uma expressão onipresente. No mundo afora, ninguém melhor no tema do que Banksy, o campeão de visibilidade (ainda que mantendo-se anônimo!), com qualidade artística legítima e provocadora. Em pleno século XXI não temos mais espaço para a mera pixação, que suja o espaço urbano com garatujas cheias de fúria significando nada. Pelo menos, não no ocidente dito "democrático", onde palavras de ordem soam anacrônicas. Em contrapartida, belos trabalhos gráficos - como o trabalho da dupla OsGemeos - trazem coloridas mensagens às vezes somente visuais e sem palavras para nosso cinzento cotidiano urbano. Muitas vezes, com mais impacto político que 1000 palavras - ou seja, o espírito transgressor.

O VÍDEO ABAIXO NÃO APARECE PARA VOCÊ?
Se você está usando um i-Gadget (iPhone, iPad etc.) e quer ver o vídeo também, assista-o no 
YOU TUBE CLICANDO AQUI.

SEM PALAVRAS: Acima, uma parábola audio-visual, animação singela que criei usando como narrativa-trilha o som da pesada de McFerrin, Charles Wright & The Watts, Pedro Luís e a Parede e last but not least, Beatles. Todos escolhidos a dedo. [LUMYX]

De alguma forma, nessa primeira década do século, o grafite, antes manifestação popular underground, vem saindo das ruas - onde co-habita simbioticamente com a estética funky street hip-hop - está invadindo as galerias de arte, assumindo-se como uma estética mainstream.

Estética essa que aparece na publicidade, camisetas, tênis, grifes fashion e todos os meios que tenham os jovens como seu público-alvo. É a fagocitose capitalista, como sempre, digerindo e alimentando-se do consumo de seus outrora inimigos. Que o digam o rock, as drogas e os posters de Che Guevara. Funciona assim, ora. Quem não está satisfeito, que devolva o iPod, o iPhone e o iPad e pegue seu dinheiro de volta.

Abaixo, alguns clássicos grafites de Banksy (veja outros aqui), como sempre ainda trazendo força política corrosiva com senso de humor que interage com o entorno. Esse é o cara. 


"Ria agora, mas um dia estaremos no comando."

"Siga seus sonhos / CANCELADO."
"Eu me lembro quando tudo isso eram árvores."

Mais artísticos, no sentido estético-poético e não político da palavra, são Gustavo e Otávio Pandolfo, paulistas que são realmente irmãos gêmeos - que têm um belíssimo trabalho conjunto, com seus personagens de rosto amarelo.


Acima, o contraste entre o trabalho d'OSGEMEOS na galeria (na exposição "Vertigem") e nas ruas ( um muro de NY).

Apesar de serem cultuados em todo o mundo (U.K., França, Alemanha, Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Holanda, Cuba, Japão, China, Austrália e nos Estados Unidos), e já tendo exposto em galerias (como Tate Modern, na parede de um castelo na Escócia, e por aí vai), OSGEMEOS fazem uma distinção muito clara entre a atitude grafite nos muros das ruas e a arte entre paredes:
"- A partir do momento que nossa arte migra para os museus, não é grafite. A essência do grafite é sem permissão, sem ninguém te dizer o que você faz". - diz Gustavo.
E Otávio completa: "Grafite é sair na rua, não saber onde e por que fazer, mas fazer. E não receber por isso" (...)"Grafite é toda a atmosfera em volta, não é encomenda. Dentro de uma instituição ou uma galeria de arte, precisamos criar o ambiente. Recebemos uma sala toda branca e construímos um mundo. Na rua já está tudo pronto e colocamos o nosso trabalho".(fonte)
 
Entrando "na cabeça amarela" d'OSGEMEOS:

23.9.09

Art Toys + Street Art - O livro "Vinil Will Kill"



VINYL WILL KILL – an inside look at the designer toy phenommenon
Produzido por DESIGN Lab em parceria com Kidrobot (S. Francisco/NYC) e Colette (Paris)
Editora IDN Hong Kong - 1a edição 2004
234 x 234 mm - 232 pags em cor – caixa especial



Vinyl Will Kill – o nome “Vinil vai Matar” vem do trocadilho fazendo rima do material do qual são feitos os bonecos e uma brincadeira sobre o contraste punk x fofo dos monstros lindinhos - que acabam virando assassinos (lembram Chuck e Gremlins?).

Uma foto gaiata feita no estúdio da Kidrobot, empresa pioneira e parceira do livro (que tem lojas em no Soho (N.Y.C.) e São Francisco) ilustra o "clima": todo o pessoal jaz caído no chão e na frente de seus computadores, e no primeiro plano, um bonequinho “serial killer” sorri... Mas tudo é principalmente uma referência ao tiro certeiro no bolso de colecionadores que não conseguem parar com a "mania".

São 44 entrevistas com toy makers e designers de diversas empresas ou núcleos da área, que revelam como acontece a concepção, os desenhos, o processo de fabricação e distribuição, a promoção, vendas em lojas e online e ainda o relacionamento com os artistas que assinam os bonecos criados pelo mundo afora, especialmente EUA, Japão, Austrália e UK. Suas motivações pessoais sempre partem da paixão em comum pelo universo pop: quadrinhos, animação, ilustração, grafite, e por aí vai. Vários deles já trabalharam em alguma destas áreas, ou então, antes mesmo disso, já brincavam e prestavam atenção ao assunto, como Gregory Blum, da StrangeCo, que quando garoto era fã e já colecionava, como a maioria deles, bonequinhos Lego, Star Wars, Smurfs e Fisher Price Adventure People.

Gregory conta que trabalhou inicialmente na Kidrobot colaborando, ao lado de Jim Crawford, na concepção e no desenvolvimento do site de venda dos bonecos, paralelamente à abertura das lojas da empresa. Em 2002 saíram para fundar a StangeCo. O objetivo era desenvolver a própria marca de brinquedos e focar uma distribuição mais ampla, por perceberem o enorme potencial deste mercado. Nada mais sintético para demonstrar a tendência que permitiu a criação de bonecos exclusivos para a indústria de moda: a Adidas lançou o “Ray”, um boneco-lata de spray criado por Ken Joho (do Head Lock Studio), e a Nike produziu uma caixa fechada como cadarço de tênis com vários bonecos criados por Andy Walker.

A parisiense Colette, loja multimarca de roupas, cosméticos, livros e cds mais fashion e celebrada do planeta, também colaborou para impulsionar esta tendência expondo em suas vitrines bonecos de artistas como Kaws, Mist, Tim Tsui e Rolito, sob a curadoria da francesa Sarah, cuja regra número um é encontrar novos estilistas e artistas a ponto de estourar no cenário fashion, neste caso, dentro de um enfoque street art.

O livro mostra toda a gama de formatos e estilos de bonecos – monstrinhos, quase abstratos, grafitados, esquisitos, fofos e referenciados no universo cartoon e cult movie como StarWars. Mas entre os bonecos imperdíveis como personagens hip-hop estão os Biddies e os adoráveis bonecos DJs “street fashion” da série da Monkey-Playground de Jason Siu, com roupinhas de tecido e acessórios perfeitos, incluindo mochilas, jaquetas (com mini-zipers) e tênis, gorros, bonés e medalhões e suas pickups e headfones. Casos de sucesso de quem soube aproveitar o lado funny da globalização acreditando na criatividade para temperar a indústria de consumo para adultos.

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Em 2006 uma revista bacana estava sendo lançada aqui no Brasil. Era a Street Magazine, com foco na cultura de rua, matérias sobre grafite, livros, comportamento, arte, moda... O jornalista Lula Rodrigues, como editor chefe, escalou um supertime: na revista # 1 vinham uma entrevista com Marcelo D2, fotos tiradas pelo celular de Cora Rónai, resenha de Tom Leão...por aí vai. Infelizmente como zilhares de projetos editoriais locais e nossa conhecida realidade econômica, a revista não prosseguiu.

Fui convocada como colaboradora e escrevi algumas matérias, algumas das quais esqueci na gaveta. De repente lembrei que, mesmo passado algum tempo, são coisas que valem a pena divulgar. Esta resenha é uma delas.

Aliás, para quem não sabe, Lula Rodrigues conta literalmente tudo sobre moda masculina no seu blog Moda Masculina Em Foco (O Globo).